segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Um poeta frustrado: Memórias de um caderno amarelo


Quando eu tinha 11 anos resolvi fugir de casa. Numa discussão que tive que enfrentar com minha mãe, cheguei à conclusão que tinha problemas de mais nessa vida (já achava que sabia alguma coisa da vida), então, meio ao stress (palavra que eu tinha acabado de aprender... a doença do século) resolvi sair de casa e fui pra casa de minha avó!A princípio pode parecer uma idéia tosca, mas na minha mente de 11 anos não conseguia encontrar lugar mais seguro do que a casa de minha vó... a final de contas era pra lá que eu corria quando tirava nota baixa e escutava o cinto correr da calça de meu pai...(muito levado!).
Mas isso não vem ao caso agora. O fato é que nesse meu refugio, onde eu passei um ano de minha vida, pude encontrar o sentido para a palavra mais fantástica que eu já tinha escutado "introspecção"! No início achei que era mais um palavrão (e olha que eu conhecia quase todos da minha rua). A primeira vez que escutei a palavra foi na escola, enquanto a minha professora de português lia um texto de Mário Quitana (não me lembro que texto era só sei que era dele... o que já é um luxo lembrar quem era o autor). Achei de cara a palavra linda, mas não dei muita importância, alguns dias depois escutei no fantástico o Pedro Bial falando: "...o homem numa introspecção!". Achei um absurdo uma professora falar uma palavra daquela para uma criança, já que na época não existia a fase do pré - adolescente. O fato é que eu peguei o dicionário e li o significado da palavra... não entendi mito mas tudo bem.
Ao chegar na casa de minha avó dei de cara com o tédio à tarde sem ter o que fazer a não ser acompanhá-la no café da tarde com suas deliciosas guloseimas. Então resolvi que queria ser poeta, pois senti uma necessidade enorme de escrever. Peguei um caderno que eu já não usava, todo encapado com um plástico amarelo e na tentativa de começar a minha carreira com o meu talento com as palavras rabisquei o meu primeiro verso... não lembro bem como era, mas sei que rimava amor com dor; e pronto. Em alguns minutos eu tinha terminado o meu primeiro poema. Mostrei a tanta gente... meus amigos achavam que era coisa de "viadinho", minhas amigas acharam lindo, e os mais velhos para quem eu tive a coragem de mostrar riram, alguns em meio a um riso e outro diziam vá em frente, outros...só riam.
Não liguei muito para as críticas no começo, mas algo em mim latejava uma frustração terrível, " - não consegui alcançar o interesse das pessoas! Como Mário Quitana consegue fazer?Hum...deve ser a tal introspecção!". Achei que tinha encontrado a solução para os meus problemas e me tranquei no quarto de janelas grandes que eu dormia no meu "refúgio”... fiquei horas lá dentro, esperando a introspecção me fazer efeito.
Infelizmente eu não consegui muita coisa...acabei desistindo de ser poeta, pois nessa de parar pra pensar muito, acabei fazendo um balanço das coisas que me faziam falta na vida depois de ter lido um título de uma redação que dizia: "você é feliz?". Tive medo da resposta, fechei meu caderno amarelo já quase no fim de tanta poesia, e voltei pra casa.
Até hoje quando se fala em "introspecção" tenho medo do resultado!

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